Dissecando o “Advanced Studio Recording Techniques”: A Bizarra e Genial Abordagem Analógica de Mac DeMarco
No áudio, muitas vezes a genialidade mora na imperfeição controlada. Enquanto a indústria se debate sobre qual plugin emula melhor a saturação de fita ou qual algoritmo de inteligência artificial recria a acústica perfeita de uma sala, Mac DeMarco chuta o balde na direção oposta.
Durante a pandemia (março de 2020), ele lançou na plataforma Eternal Family a série “Advanced Studio Recording Techniques”. Recentemente, a compilação de quase uma hora contendo os 5 episódios foi liberada no YouTube. O que encontramos lá não é um tutorial engessado sobre ganho de estágio, mas um laboratório de mad scientist, onde a acústica bruta, equipamentos vintage caríssimos e uma abordagem absurdamente Do It Yourself se encontram.
Se você acha que precisa de acústica perfeita ou do último VST do mercado para encontrar sua sonoridade, pare tudo e assista a isso. Vamos destrinchar o que realmente está acontecendo no estúdio dele.
Episódio 1: A Câmara de Echo Caseira (Esqueça seus Plugins de Reverb)
A obsessão de Mac por espaços reais fica evidente logo de cara. Em vez de abrir o Valhalla Vintage Verb, ele desce para um porão de concreto cru embaixo da casa vizinha para criar uma echo chamber real.
A engenharia reversa do setup:
* O Envio (Send): O áudio da DAW é roteado para fora dos conversores digitais. Em vez de passar um monte de cabos multicore pesados até o porão, ele usa um sistema Radial Catapult Mini. Essa sacada genial converte um cabo de rede Cat 5 comum em um multicabo de áudio analógico de 4 canais. Uma solução barata e eficiente para cobrir longas distâncias sem perda de sinal.
* A Reprodução no Ambiente: O sinal é amplificado no porão por uma caixa de PA ativa Mackie Thump 15A. É ela que excita a sala.
* A Captação (Return): Para captar as reflexões curtas e duras do concreto, ele posiciona um par casado de Neumann KM 184 (condensadores de diafragma pequeno, conhecidos por sua resposta de transientes absurdamente rápida) apontados para os cantos opostos da sala.
* O Resultado: Ele passa bateria, piano elétrico FM e baixo por essa “sala”. O resultado é aquele “slapback” cavernoso e um reverb room denso e não linear que nenhum algoritmo consegue reproduzir com a mesma imprevisibilidade.
Episódio 2: Shootout de Microfones (Com Pré-amplificação de Classe A)
Todo nerd de áudio ama um bom shootout. Mac alinha um verdadeiro arsenal de microfones, e o que mais chama a atenção é a cadeia de sinal que ele usa como “palco” para esse teste: um raro pré-amplificador valvulado Neumann V76M.
Os testes de sibilância e corpo revelam o caráter de lendas da indústria:
1. Shure SM57 & SM7B: Os clássicos dinâmicos revelando a necessidade de mais ganho e o som mais seco.
2. Electro-Voice RE20: A demonstração perfeita do controle de efeito de proximidade (Variable-D).
3. Lomo 19A9: Um condensador russo vintage e obscuro que entrega um caráter peculiar.
4. Neumann U47: O peso, o brilho sedoso e a imagem maior que a vida (larger-than-life) do condensador valvulado mais famoso da história.
5. RCA 44-BX: O som macio, aveludado e com atenuação de agudos clássico de um microfone de fita topo de linha.
Episódios 3 e 4: O Contraste entre o Digital Tosco (SC-88) e a Bateria Premium
O contraste na produção de Mac é o que define sua assinatura sonora. No episódio 3, vemos a paixão por texturas digitais “lo-fi”. Ele importa do Japão um Roland Sound Canvas SC-88 Pro (um módulo de som PCM General MIDI de 1994). O charme está na “tosquice” das amostras de fábrica de 32 partes multitimbrais. Ele roda um arquivo MIDI de “Can’t Help Falling in Love” pelo módulo e capta com uma interface Sound Devices. É o suprassumo da estética vaporwave/indie.
Já no episódio 4, a chave vira 180 graus. Para a bateria acústica, ele não economiza. O setup é um sonho molhado de qualquer engenheiro:
* Bumbo: AKG D12 no buraco (o punch vintage) + Neumann U47 FET fora (subgraves e peso).
* Caixa: Sennheiser MD441 (top) – um microfone dinâmico com clareza de condensador – e o padrão SM57 no bottom.
* Tons: Par casado de fitas Coles 4038. É aqui que o som de Mac ganha aquele peso escuro e gordo nos tambores. Os Cole 4038 “comem” os transientes mais ásperos e entregam uma massa sonora gigante.
* Overheads: Um par de Neumann U67 valvulados.
A magia negra acontece na cadeia: tudo isso entra em uma sidecar Neve BCM10 repleta de clássicos pré-amplificadores Neve 1073 (aquela saturação harmônica de transformadores Marinair) e vai direto para a fita em uma máquina multitrack Studer A827 de 24 canais (2 polegadas). É compressão natural de fita e “glue” analógico na veia.
Episódio 5: Field Recording (O Mundo como Instrumento)
Para finalizar, a quebra das quatro paredes do estúdio. Equipado com um gravador Sound Devices MixPre-3 (capaz de gravar em 32-bit float, o que significa alcance dinâmico quase infinito sem clipar) e um microfone shotgun Sennheiser MKH 50 num boom pole da K-Tek, Mac sai em busca de texturas.
O uso de sons da natureza (riachos, pássaros) processados e manipulados é o que preenche os espaços vazios nas produções orgânicas.
O Veredito para o Produtor Moderno
O vídeo do Mac DeMarco não é para você copiar o setup (até porque poucos têm uma Studer A827 dando bobeira na sala). A lição aqui é sobre mentalidade. É sobre usar o espaço físico, combinar texturas digitais “baratas” com gravação orgânica premium e, principalmente, tirar os olhos da tela do computador e usar os ouvidos.
🎛️ Domine a Arte da Mixagem e Produção Musical
Seja gravando em um porão de concreto, no seu quarto sem tratamento acústico ou usando o melhor hardware analógico, o que separa os amadores dos profissionais é o conhecimento técnico e a capacidade de resolver problemas. Pare de depender de presets. Entenda o que cada compressor, equalizador e saturação faz no seu áudio.
