Conheça os Plugins da NEVE Oficiais

Depois de mais de vinte anos construindo alguns dos equipamentos mais cobiçados do áudio profissional, a RND finalmente colocou o próprio nome em software. São três de uma vez — e eu rodei os botões de todos eles numa mixagem de verdade.

A notícia é simples de contar e difícil de exagerar: em 15 de setembro de 2026, a Rupert Neve Designs lançou o Portico II Master Buss Processor, o 551 Inductor EQ e o 542 Tape Emulator em formato de plugin. A empresa já tinha emprestado seus circuitos para software de outras marcas ao longo dos anos, mas nunca havia lançado nada sob o nome dela própria. A modelagem foi feita em parceria com a McDSP. Peguei os três, joguei numa mixagem completa e testei botão por botão — o vídeo abaixo mostra tudo funcionando na prática.

O que exatamente foi lançado

Três plugins, vendidos separadamente, cada um modelado de um hardware específico que já existe e já é usado em estúdio e em turnê há mais de uma década.

  • Portico II MBP: Compressor · Limiter · M/S
  • 551 Inductor EQ: Equalizador · 3 bandas
  • 542 Tape Emulator: Fita · Soft clip · Silk

Antes de entrar em cada um, vale registrar um detalhe que a maioria das matérias passou batido: o 551 é o único equalizador 500-series que o próprio Rupert Neve desenhou. O circuito nasceu para o Shelford Channel e também está nos módulos penthouse do console 5088. Não é “inspirado em” — é o projeto dele.

Portico II Master Buss Processor

É o carro-chefe do lançamento e o mais completo dos três. Na prática são quatro seções independentes dentro da mesma janela: compressor VCA, limiter de soft-clip, um editor de campo estéreo e a seção Silk.

O compressor tem THRESHOLD, RATIO de 1:1 a 40:1, ATTACK de 20 a 80 ms, RELEASE de 100 ms a 3 segundos, make-up gain e um BLEND de paralela embutido. Tem ainda duas chaves que mudam o caráter da compressão por completo: RMS/PEAK, que troca o modo de detecção, e FF/FB, que escolhe se o detector escuta antes ou depois do elemento de ganho.

Uma observação honesta sobre o attack: o ajuste mais rápido é 20 ms. Isso é lento perto de um 1176, e é justamente por isso que ele não mata transiente. Num bus de bateria essa característica deixa de ser limitação e vira ferramenta — é o A/B mais didático que dá para fazer com esse plugin.

O SFE (Stereo Field Editor) é a seção mais original. Ele separa o que está no centro do que está nas laterais e deixa você mexer em cada um por banda de frequência, com chaves de LF, LM, HM e HF. Dá para alargar só os pratos e os overheads sem tocar no bumbo e na caixa. Funciona muito bem.

551 Inductor EQ

Três bandas de ±15 dB, cada uma com referência num módulo vintage diferente: a banda de grave busca a textura dos 1064, o médio é claramente 1073, e o agudo é um híbrido que mistura indutor com topologia moderna a capacitor.

A flexibilidade que o original não tinha está nas chaves. HF PEAK e LF PEAK transformam shelf em sino, e MF HI Q estreita o Q do médio para quando você precisa de precisão em vez de musicalidade. O passa-alta é fixo em 80 Hz, 12 dB por oitava, e funciona independente do botão EQ IN — detalhe que confunde bastante gente na primeira vez.

O ponto que vale entender aqui é o que significa “EQ a indutor”. Indutor é fio enrolado em bobina, parecido com um transformador, mas que oferece resistência dependente de frequência — e satura de um jeito musical. Essa saturação é boa parte do som dos 1073 e 1064. O plugin modela não só a curva, mas como os indutores interagem harmonicamente com cada posição de EQ. Tradução prática: 100 Hz com +6 dB não é a mesma coisa que 60 Hz com +6 dB apenas deslocada de lugar. Soa diferente.

542 Tape Emulator

Esse é o mais direto dos três e provavelmente o que mais gente vai usar no dia a dia. São três estágios de harmônicos em série: o drive de entrada, a saturação de fita com soft-clip, e o Silk do transformador.

Duas coisas merecem atenção porque contrariam o que quase todo emulador de fita faz.

A primeira: subir o SATURATION não aumenta o volume. Conforme você gira, a saturação da cabeça de gravação sobe e o ganho do amplificador de replay cai na mesma proporção. A resposta de frequência muda, a distorção harmônica aumenta, e o nível de saída fica no lugar. Isso torna o A/B honesto sem precisar compensar ganho — coisa rara.

A segunda: o BLEND mistura apenas o efeito de fita com o sinal seco. O Silk está depois do blend na cadeia, então ele não é atenuado quando você baixa o blend. Se quiser menos cor total, precisa baixar o TEXTURE também.

A chave 15/30 IPS é o controle que mais muda o som. Em 15 IPS existe um head bump forte em torno de 60 Hz e um rolloff de agudo mais pronunciado; em 30 IPS a resposta é mais plana, com o bump por volta de 120 Hz. Num baixo, o bump de 60 Hz cai bem em cima da fundamental da maioria das notas — a diferença entre as duas posições é enorme.

O medidor de Drive é o detalhe que ninguém comenta: o soft-clip só começa a agir depois que ele passa de 5. Antes disso, você está ouvindo fita, não clipper.

O que os plugins fazem que o hardware não faz

Esse é o ângulo mais interessante do lançamento, porque a RND não se limitou a clonar. São recursos que um dono do equipamento original simplesmente não tem.

Recurso No hardware No plugin
M/S verdadeiro Só dentro do SFE do MBP Nos três. Compressor, EQ, fita e Silk tratam mid e side de forma independente
HPF do side-chain Fixo em 125 Hz Varrível
Threshold do compressor −30 a +20 dBu −50 a 0 dBFS, faixa muito maior
Side-chain externo Insert traseiro em TS Key input real, com SC Enable e SC Listen
Posição do SFE Fixa, antes do compressor Botão SFE Post reposiciona a seção inteira
Medição de I/O Não existe no 542 e no 551 VU comutável entrada/saída com indicador de clip
Output trim no 551 Não existe ±15 dB, independente por canal
Par estéreo Dois módulos físicos Uma licença, duas ativações

Vale uma ressalva para ser justo: o SFE to Comp do hardware, que mandava a informação de depth para o compressor do canal A e a de width para o do canal B, não aparece no manual do plugin. O que entrou no lugar foi o SFE Post. É a única função do painel original que parece não ter atravessado.

Como usei cada um na mixagem

Master

Portico II em modo stereo, ratio em 1,5:1 ou 2:1, attack lento, threshold ajustado para 1 ou 2 dB de redução nos picos. O side-chain HPF entre 60 e 120 Hz é o que faz o bombeio desaparecer. Depois dele, o 542 bem conservador: saturação baixa, blend entre 20 e 40%, 30 IPS.

O teste que mais surpreende: comparar stereo contra dual mono com o mesmo ajuste. A própria RND recomenda isso no manual, e em algumas músicas o dual mono melhora a imagem estéreo.

Vocal

551 com o passa-alta ligado, médio em 3 kHz com Q largo para trazer à frente, e shelf de 16 kHz para ar. Se aparecer ressonância chata, liga o MF HI Q e procura em 700 Hz ou 1,5 kHz. Depois, 542 com o blend fazendo o trabalho — saturação alta com blend em 30 a 50% dá cor sem comprometer a inteligibilidade.

Baixo

É a fonte onde o 542 mais aparece. O manual sugere baixo e vocal como as duas primeiras fontes para conhecer o plugin, e faz sentido. Compare 15 contra 30 IPS com o resto igual e você entende o plugin inteiro em dez segundos.

Bus de bateria e de guitarra

Na bateria, o Portico II com attack rápido segura a frente da baqueta e levanta corpo e sala; com attack lento, deixa a baqueta passar e comprime o decay. Faça os dois com a mesma redução de ganho e a diferença fica óbvia. Nas guitarras, o Silk em RED com texture médio abre o agudo sem precisar de EQ.

O erro mais comum

Se você quiser usar só o limiter, precisa ligar o COMP IN mesmo assim — o limiter não funciona sem ele — e deixar o ratio em 1:1. E atenção: o knob LIMIT começa desligado e você gira no sentido anti-horário para começar a limitar. Quanto mais anti-horário, mais lento fica o release.

Vale a pena?

Os três juntos dão US$ 457, o que não é pouco. Mas o par de módulos 542 em hardware custa mais do que isso sozinho, e aqui você leva M/S verdadeiro, medição e duas ativações por licença.

Se eu tivesse que escolher um só para começar, seria o 542. É o mais versátil, o mais barato junto com o 551, e é o que mais muda o som de uma fonte individual. O Portico II é o mais poderoso, mas também o que exige mais conhecimento para render — não é um plugin de preset.

A boa notícia é que dá para testar sem risco: os três têm demo de 14 dias. Instala, abre a DAW e clica em “Try”. Exige conta iLok, que funciona com dongle, machine-based ou iLok Cloud.

Formatos AAX Native, AU e VST3, nativo em Intel e Apple Silicon, macOS 10.13 em diante e Windows 10 e 11.

Fontes

Comments

No comments yet. Why don’t you start the discussion?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *