Nos últimos dias apareceu em tudo quanto é lugar a notícia de que clonaram o Pro Tools e botaram de graça no GitHub. “Clonaram o Pro Tools.” “IA clonou a Adobe inteira.” “Engenharia reversa com inteligência artificial.”
Um projeto chamado ArtCraft, de um desenvolvedor chamado Brandon Thomas, que tem quinze anos de estrada na área. Em outubro ele soltou sete programas de graça imitando a suíte inteira da Adobe. Um pro Photoshop, um pro Premiere, um pro Illustrator, e por aí vai.
O SoundCraft é a peça de áudio dessa família. Não nasceu de uma empresa de áudio. Nasceu de uma briga com a Adobe, o cara cansou de pagar assinatura e de apanhar na hora de cancelar.
E tem uma ironia logo de cara: Soundcraft já é marca de mesa de som da Harman há décadas. Ou seja, o nome escolhido já tinha dono no mundo do áudio.
Clone abre a sua sessão. Esse não abre
Clone é clone. Clone é idêntico.
E tem um teste que resolve isso em dois segundos: clone abre a sua sessão.
Esse não abre. Você não leva seu projeto do Pro Tools pra lá. Não traz de volta. E não entrega pro editor de vídeo, porque ele também não exporta no formato que a edição de imagem usa.
Chegou ali, começa do zero. Toda vez.
Isso não é um clone. É outro programa, com a mesma planta baixa.
Tem VCA. Tem pasta de roteamento. Tem dez inserts e dez sends por canal. Tem compensação automática de delay de plugin. Tem automação de volume, pan, mute, send e de qualquer parâmetro de plugin, gravada ao vivo em Write, Touch e Latch.
Tem surround até 9.1.6, com Ambisonics e panner com altura. Tem Beat Detective. Tem editor de partitura que exporta pro Sibelius. Tem track de vídeo pra você mixar contra a imagem. Tem Elastic pra esticar áudio. Tem leitura de LUFS no bounce. E ele hospeda os seus plugins.
Isso não é brincadeira de fim de semana. É muita coisa.
E é grátis de verdade. Não é teste de trinta dias, não é versão capada, não é conta obrigatória. Você baixa, instala e usa, inclusive num trabalho que você vai cobrar. Roda no Mac, no Windows, no Linux e até dentro do navegador.
Aí você senta pra gravar
E é aqui que a história vira. São quatro problemas, e você vai entender na hora.
Você não escolhe a sua placa de áudio. Não tem onde escolher. Ele pega a saída padrão do sistema e acabou. Não escolhe entrada, não escolhe canal, não escolhe buffer. E no Windows não tem ASIO, então a latência é alta. Você toca e o som volta atrasado.
Seu teclado controlador não funciona. Nenhum. Zero MIDI de hardware. Quer gravar uma linha de teclado? Vai desenhar as notas com o mouse, igual em 1998.
Ele carrega tudo na memória do computador. Inclusive o que você está gravando. Sessão de uma hora enche a memória. E se travar no meio de um take longo, o take se foi.
Ele não conversa com ninguém. Nem com o Pro Tools, nem com a edição de vídeo.
Repara no tamanho dessa contradição: tem renderizador de surround 9.1.6, mas você não consegue escolher sua interface. Tem editor de partitura, mas seu teclado não grava.
Mas as atualizações são diárias, pode ser que tudo isso já tenha sido resolvido no momento que você lê essa mensagem.
Curso completo de mixagem
Nenhuma DAW mixa por você
Pode ser Pro Tools, pode ser esse clone, pode ser o que for. A ferramenta muda, a decisão é sempre sua. No FM3 eu mostro o processo inteiro de mixagem, do ganho estrutural até a entrega final — com o critério por trás de cada movimento.
94% de menu, 40% de trabalho
Agora presta atenção nesse número, porque ele é o artigo inteiro.
E quem mediu foram eles mesmos. Está escrito na página oficial do projeto, pra qualquer um ler.
| O que foi medido | Quanto |
|---|---|
| Menus do Pro Tools que já existem ali | 94% |
| Recursos presentes, de alguma forma | 70% |
| Quanto dá pra trabalhar de verdade | 40% |
Noventa e quatro por cento de menu. Quarenta por cento de trabalho.
É tipo você entrar num estúdio lindo. Mesa gigante, tudo no lugar, cheiro de madeira. Aí você senta e descobre que metade dos canais não está ligada em nada.
Tem botão pra tudo. Não tem onde plugar.
E essa distância, entre parecer e ser, é o assunto de verdade aqui. Guarda ela, porque daqui a pouco a gente vê a mesma distância em outro lugar.
A segunda palavra que usaram errado
Repara no que aconteceu de verdade: um programa foi escrito do zero, por um engenheiro com quinze anos de carreira, em oito dias, com ajuda de inteligência artificial.
E a notícia chegou até você assim: “IA clonou o Pro Tools.”
Duas palavras erradas numa frase de quatro. “Clonou” e “IA”.
Da primeira eu já falei. Agora a segunda que é a que mais me irrita, porque ela me pega toda semana.
Quando alguém diz “inteligência artificial”, está dizendo uma palavra que sozinha não significa nada. É como dizer “eu uso veículo”. Caminhão é veículo. Patinete é veículo. Boa sorte na conversa.
IA não é uma tecnologia. É uma categoria de marketing. E dentro dela cabem coisas que quase não têm relação entre si.
São três famílias:
| Família | O que faz | O que ameaça | Exemplos |
|---|---|---|---|
| Gera | inventa conteúdo que não existia | substitui autoria | Suno, ChatGPT, ElevenLabs |
| Analisa | entende e transforma o que já existe | não substitui ninguém, amplifica | RX, separação de stems, Melodyne |
| Executa | cumpre tarefas em cadeia | substitui trabalho repetitivo | agentes, automação |
A primeira é a que gera polêmica, e com razão. Ela cria coisa nova e pisa no calo da autoria.
A segunda é onde eu vivo. E você também, só que você não sabe.
A terceira é a que quase ninguém conhece, e é a que mais mudou meu trabalho.
Quando alguém diz “IA”, noventa por cento das vezes está falando só da primeira coluna. Aí me perguntam se eu uso IA, eu digo que sim, e a pessoa já imagina que eu pedi pro robô fazer a música.
Não é discordância. É erro de categoria.
Você já usa IA há 20 anos
Essa é a parte que eu mais quero que você entenda.
Você não é contra IA. Você usa IA há vinte anos. Só não chamavam assim.
Separação de stems. Você joga uma música pronta, mixada e masterizada, e tira a voz. Isso não é filtro. É uma rede neural treinada em milhares de músicas pra aprender o que é voz e o que não é. O Spleeter, da Deezer, saiu em 2019. Ninguém chamou de IA na época. Chamavam de ferramenta.
O RX. Se você faz pós-produção, você vive nele. De-noise, De-click, Dialogue Isolate. Tudo modelo treinado. Você aperta um botão e o programa decide o que é diálogo e o que é ar-condicionado. Decidir é inteligência artificial.
Melodyne. O DNA saiu em 2009 separando notas de dentro de um acorde. Na época, todo mundo chamou de mágica. Hoje chamariam de IA e metade da internet ia querer cancelar.
Captura de amp. Se você usa NAM ou plugin de captura, você está rodando uma rede neural dentro do seu plugin de guitarra. Ela aprendeu o comportamento de um amplificador real e reproduz. É a mesma família de tecnologia que gera imagem, aplicada em outra coisa.
E tem mais: detecção de pitch e tempo, warp, quantização de áudio, EQ assistido, transcrição de diálogo, legenda automática, edição de áudio por texto.
Se você usa RX, você usa rede neural. Se usa captura de amp, usa rede neural. Se usa stems, usa aprendizado de máquina.
A tecnologia não mudou nos últimos três anos. Mudou o nome que o marketing deu pra ela. E mudou o seu humor em relação a ela por causa do nome.
Produção musical com IA
Pare de ser 8 ou 80 com inteligência artificial
É exatamente isso que eu ensino nesse curso: quais ferramentas existem de verdade, o que cada uma faz, onde elas entram no seu fluxo — e onde não entram. Sem hype e sem pânico. Pra você usar com critério, não por moda.
A categoria que quase ninguém conhece
Terceira família. Essa quase ninguém conhece, e é a que mais mudou meu trabalho.
Agente não gera conteúdo. Agente faz coisa. Ele abre programa, executa comando, lê arquivo, vê que deu errado, corrige e tenta de novo. É menos um artista e mais um estagiário muito rápido que não reclama.
E olha a coincidência: o melhor exemplo disso é o programa do começo do artigo.
O SoundCraft foi feito pra ser pilotado por fora. Tudo que você clica no menu, dá pra mandar por escrito: dá play, abaixa o kick em 6 dB, bota um EQ no baixo, faz o bounce. Em bom português, você pode mandar uma IA operar a DAW pra você.
É a primeira DAW pensada desde o começo pra isso.
E repara: isso não é IA fazendo música. É IA apertando botão. Duas coisas completamente diferentes, que chegaram até você embaixo da mesma palavrinha de duas letras.
No meu trabalho, isso vira coisas sem glamour nenhum: renomear e organizar biblioteca de samples em massa, varrer uma pasta atrás de arquivo corrompido ou com sample rate errado, preparar o mesmo entregável em cinco formatos pro cliente, conferir se todos os arquivos de uma sessão estão mesmo na pasta antes de arquivar.
Nada disso gera nada. Nada disso substitui criatividade. Tudo isso me devolve horas da semana.
Não é IA escrevendo música. É IA fazendo a parte que eu odeio.
E tem um detalhe que eu achei notável: no documento onde os criadores listam o que ainda falta no programa, o esforço de cada tarefa está estimado em horas de trabalho de um agente de IA. Não de uma pessoa. Eles planejam o futuro do projeto em unidades de tempo de máquina. Nenhuma reportagem sobre o caso mencionou isso.
O medo é legítimo. O nome é que está errado
Agora deixa eu falar uma coisa, pra eu não virar aquilo que estou criticando.
Tem gente com medo. E tem motivo.
Quem vive de música de biblioteca, de jingle, de locução, de trilha de vídeo institucional está sendo comido. Não é paranoia. Eu conheço gente que perdeu trabalho esse ano.
Mas olha com calma.
O problema nunca foi “IA”.
O problema é uma coisa bem específica: pegar o trabalho de alguém, sem pedir e sem dar crédito, e usar aquilo pra fabricar o substituto dele.
Esse é o nome certo. E quando você usa o nome certo, tudo muda de lugar.
Tirar chiado de um diálogo não tira o trabalho de ninguém. Gerar uma música no estilo de um artista que não autorizou, tira.
Duas coisas diferentes. Duas reações diferentes.
E tem uma ironia boa nessa história: entre as coisas que ainda faltam no SoundCraft está a transcrição de diálogo que o Pro Tools já faz e melhorou esse ano. Os próprios criadores classificaram essa pendência na categoria “IA”.
Ou seja: a DAW tradicional que todo mundo defende embarca IA há tempos. A briga nunca foi IA contra não-IA.
No fim das contas
Clonaram o Pro Tools? Não.
Fizeram um programa parecido, de graça, que ainda não abre sua sessão, não reconhece sua placa e não grava seu teclado. Tem 94% dos menus e 40% de utilidade. É interessante, vale acompanhar, não vale instalar ainda.
E a IA clonou sozinha? Também não. Um cara com quinze anos de estrada usou uma ferramenta durante oito dias. A ferramenta é impressionante. Ela não dispensou a competência dele — ela expõe quem não tem.
Quando você sabe o nome das coisas, você consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo: defender a ferramenta que te ajuda e brigar com a que te prejudica.
Quando você só sabe dizer “IA”, você é obrigado a escolher um lado burro. Ou abraça tudo e passa pano pro que não dá pra passar. Ou rejeita tudo e joga fora ferramenta que te ajuda há vinte anos.
Os dois lados erram. E erram pelo mesmo motivo: falta palavra.
Não dá pra ter opinião sobre o que você não sabe nomear.
Quer ir mais fundo?
Os dois cursos se completam: um te dá o critério de mixagem, o outro te dá o mapa das ferramentas de IA que valem a pena no seu fluxo.
No vídeo eu mostro tudo isso com as telas na mão, incluindo a página onde os próprios criadores admitem os números. Dá uma olhada: https://youtu.be/BNcwNj0bwG0
E me conta nos comentários: qual dessas ferramentas você já usava sem saber que era IA? Aposto que pelo menos três.